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Abandono dos estudos na pandemia: como motivar os jovens a não desistirem

O abandono dos estudos na pandemia está entre as grandes preocupações na pauta educacional. De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), em 2020, 28% dos jovens, com idade entre 15 a 29 anos, pensam em não continuar a estudar quando a crise sanitária da Covid-19 chegar ao fim. 

O levantamento, feito com 33.688 pessoas, identificou mais uma das consequências da doença, que já matou milhares de pessoas. A suspensão das atividades presenciais, que completa quase um ano na maior parte do país, é uma das razões para a quebra de vínculo entre alunos e escola. Em diversos lugares, principalmente nas áreas com vulnerabilidade social, são vários os relatos de estudantes sem equipamentos ou conexão à internet para aderir ao ensino remoto. 

Por toda parte, vemos famílias passando por uma situação econômica cada vez mais frágil, professores com dificuldades em manter os alunos engajados e pais preocupados com a falta de perspectiva de volta às aulas presenciais.

Os desafios para o estudo remoto

Apesar da disposição dos alunos para fazerem as atividades em casa, muitos se sentem desmotivados, não têm um ambiente favorável para o estudo em casa, se sentem incapazes de responder às demandas ou têm saudades dos colegas e das trocas presenciais.

O distanciamento social e a necessidade de reclusão também fez crescer o número de estudantes que sofrem com problemas de ansiedade e dificuldades de relacionamento em casa. 

Além dos desafios para os jovens, os professores também precisaram se adaptar a um sistema de ensino diferente. A necessidade de lidar com novas tecnologias, em pouco tempo, e redesenhar a forma de lecionar também impacta em todo o processo. 

A evasão escolar no Brasil

O abandono escolar é uma realidade bem conhecida de milhões de brasileiros e um dos principais problemas no sistema de educação nacional. Segundo a pesquisa Pnad Contínua 2019, divulgada pelo IBGE no ano passado, de 50 milhões de pessoas com idades entre 14 e 29 anos, dez milhões não terminaram alguma das etapas da educação básica.

Entre os principais motivos estão a necessidade de trabalhar, a falta de interesse e, no caso das mulheres, ainda entram gravidez e a obrigação de dar conta das tarefas domésticas.

No entanto, a pesquisa também revela alguns avanços e dados positivos. A proporção de brasileiros de 25 anos ou mais com ensino médio completo cresceu e quase 100% das crianças e adolescentes, com 6 a 14 anos, estavam na escola em 2019. 

Como impedir o abandono do estudo na pandemia

Em meio a tantos problemas, não é fácil manter o ânimo para estudar. No entanto, há algumas dicas para ajudar os jovens a investirem na educação.

O primeiro passo é orientá-los a descobrir o método que funciona melhor para cada um. Não adianta passar horas na frente dos livros, se esse modelo não traz resultados. 

Assistir a videoaulas, ler textos e livros, resolver questões, conversar com o professor ou criar grupos de estudo que aproximem os colegas podem ser ações essenciais nesse processo de ensino remoto.

Seguir uma rotina similar à que se teria na escola, acordar cedo, vestir-se adequadamente, tomar o café da manhã no horário normal e focar nas atividades seguindo as demandas, também pode ajudar a criar uma consciência de que aquele momento é dedicado ao estudo.

Vale ressaltar que é de extrema importância que o aluno encontre o equilíbrio na sua rotina, com as mesmas pausas que teria na escola ou cursinho. 

Por fim, o incentivo direcionado para o futuro é crucial. A educação é uma das maiores portas para uma vida melhor, com mais oportunidades. É fundamental incentivar o aluno a olhar para frente e ter esperança, pensando que o agora pode estar difícil, mas o futuro será positivo.

Para Flávia Martins, psicóloga e instrutora do Instituto Ramacrisna, também é importante incentivar os jovens a olhar para a oportunidade de estar em casa como algo positivo. “Neste momento eles podem estar mais próximos à família, fortalecendo relações e a troca educacional. Então é bom que tentem tirar proveito desse período, já que, futuramente, podem não ter mais esse benefício”.

A pandemia e o Instituto Ramacrisna

O Ramacrisna é uma organização social que acredita e investe na qualificação de jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social. Além de complementar a educação escolar, o espaço promove atividades que apresentam o mundo da tecnologia, do esporte e da cultura a esse público.

Com a pandemia, o instituto precisou reformular sua atuação, mas conseguiu manter a dinâmica de trabalho. De acordo com a psicóloga, o processo de reformulação se deu de forma rápida e com muito apoio da equipe. “O Instituto tem uma visão tecnológica muito grande e já trabalhava utilizando sistemas e tecnologias. Apesar das dificuldades, conseguimos colocar a mão na massa sem pausa nas atividades.”

Os cursos migraram para o virtual, em plataformas e ferramentas gratuitas como Google Meets e o Google Classroom. Foram adotadas várias estratégias para que os alunos não fossem prejudicados. Os professores prepararam orientações para ajudá-los a utilizar todos os sistemas, com vídeos de instruções e tutoriais.

Além disso, o Ramacrisna aproveitou a oportunidade para reorganizar as turmas, mesclando os alunos para que houvesse novas trocas de ensino. Também investiu no diálogo, já prevendo a queda na motivação, inseguranças e os desafios, para que os jovens pudessem sugerir temas que gostariam de discutir ou estudar buscando prender sua atenção.

Ações de apoio e suporte

O Ramacrisna também cedeu espaço para que os assistidos pudessem usar os computadores do laboratório (por meio de reserva), emprestou instrumentos para que os alunos da Orquestra Jovem Ramacrisna mantivessem a rotina de estudos em casa e disponibilizou materiais físicos para aqueles que têm limitações tecnológicas ou preferem o material impresso.

Além disso, distribuiu chips de internet para famílias da região em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA). Com o apoio de empresas e organizações parceiras, também conseguiu entregar tablets para alunos que cumprem medidas socioeducativas, cestas básicas, de higiene e de verduras para comunidades em alta vulnerabilidade de Betim.

Alguns alunos do programa de aprendizagem, os jovens aprendizes, também contaram com o apoio das organizações em que trabalham, que emprestaram computadores para que continuassem seus estudos e atividades profissionais.

A assistência psicológica também seguiu ativa no sistema remoto. O programa Se Cuida Jovem, que existe desde 2018, foi adaptado para o contexto da pandemia, oferecendo encontros virtuais com profissionais capacitados da área de psicologia de faculdades parceiras.

O intuito do projeto é ajudar os alunos a lidar com as demandas familiares, da empresa, da vida pessoal e, até mesmo, do instituto. Em casos mais complexos, é solicitado o apoio da rede de agentes governamentais de instituições como a escola, o posto de saúde, os Centros de Referência da Assistência Social (CRAS), entre outros.

Para Flávia, todas essas medidas e estratégias ajudaram a fazer com que a taxa de evasão fosse mínima. Segundo ela, o Ramacrisna manteve um contato muito próximo de seus alunos para que pudesse ficar por dentro das dificuldades de cada um. Assim, conseguiu buscar a melhor forma de não perdê-los neste período. “Nossos profissionais estavam sempre atentos ao que estava acontecendo e, à medida que iam chegando novos recursos, os alunos com dificuldades retornavam”, conta.

De acordo com a profissional, a situação, hoje, está 100% fluída. As aulas funcionam de segunda a sexta-feira, com lives, momentos para desenvolver as atividades, dinâmicas e vídeos no formato ensino à distância e comunicação constante por e-mail.

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